Malolotja, um Parque como deve ser
MALOLOTJA, um Parque como deve ser


A Swazilândia é um pequeno país encravado no meio da África do Sul que faz também fronteira com Moçambique. Com área de apenas 17 mil km2 e 860.000 mil habitantes, este reinado é formado pelos Swazis que, assim como os Zulus, são originários das migrações do povo Bantu. Ele somente existe porque os Boers (aqueles do Apartheid !) estavam muito ocupados se defendendo dos Ingleses e não tiveram tempo nem energia para anexar mais um território.

Possessão Inglesa, se tornou independente em 1968 e hoje é governado pelo rei e sua mãe. No entanto, mantém ainda forte dependência tanto da Inglaterra quanto da África do Sul. Fala-se o Swazi como língua mãe e vivem basicamente do comércio de açúcar e eucalipto, tendo 75% da população na zona rural. Apesar disso, não são auto suficientes em alimentos. É um país muito pobre, não vimos porém, durante nossa viagem, nem favelas e nem mendigos. É um país de negros, governado por negros.

O que nos chamou a atenção logo de início foi a facilidade com que cruzamos a fronteira, principalmente após a experiência de termos atravessado, no mesmo dia, a fronteira moçambicana, bastante burocrática e complicada. Nossa impressão seguinte é, no mínimo, uma das lições que o Brasil poderia aprender com este pequeno país: em um lugar onde aparentemente não havia cidade ou vila, apareceram centenas de estudantes uniformizados caminhando pela estrada na volta para casa após a aula. Finalmente nos encantou a presteza do povo e o inglês educado e correto com que nos atenderam e informaram, muito diferente do povo pós Apartheid do país vizinho, ainda arisco e desconfiado de nós brancos.

Munidos do mapa rodoviário do país e dos folhetos sobre o Parque colhidos tanto na fronteira quanto pelo caminho, viajamos por mais duas horas para alcançar Malolotja.

Mas .... O que esperar de um parque nacional em um país assim pobre e pequeno?

MALOLOTJA foi uma GRATA surpresa!!!!!!!!!!!!

Administrado pela “Swaziland National Trust Commission”, é um parque pequeno para os padrões africanos, com 18.000 hectares (10 x 30 Km aproximadamente), com vegetação predominante de campos de altitude (a 2000m snm.) e vales com bosques de arvores baixas.

Junto à entrada está a recepção e um pequeno mercado. A área de camping principal fica a uns 500m. O Parque possui também 5 chalés para locação e casas para os “rangers”. Fomos extremamente bem atendidos pelo “ranger” de plantão, que nos cobrou uma entrada de U$2 por pessoa e nos vendeu um mapa COMPLETO do parque bem como um guia de trilhas escrito pelos “senior rangers” por outros U$3 .

O mapa continha todas as trilhas e a localização dos pontos de acampamento remoto. No guia, de 40 páginas, encontramos a descrição detalhada, tempos de caminhada, coordenadas dos acampamentos e níveis de dificuldades das várias trilhas.

Segundo o guia “Malolotja has a 200km trail network which has been set out to encourage people of all ages to enjoy the great outdoors and the pleasure that go with hiking and backpacking”

O “ranger” nos explicou que poderíamos caminhar desde alguns minutos até 7 dias. Perguntamos sobre distâncias, belezas, cuidados e pontos de acampamento e em pouco tempo tínhamos um roteiro para o próximo dia! As regras de caminhada nos foram explicadas: além do básico como cuidar do lixo, não coletar animais, plantas, madeira ou rochas, não alimentar os animais, não ouvir música alta ou gritar, não acender fogo ou acampar fora das áreas determinadas, não caminhar fora dos horários, não entrar com qualquer animal doméstico e respeitar as ordens do “ranger”, pode-se ir a QUALQUER LUGAR, com exceção de algumas minas de valor arqueológico, somente visitadas em companhia de um “ranger”.

O parque está aberto das 6:30 às 18:30 e isso vale também para os caminhantes, ou seja, fora deste horário, todos devem estar em uma área de camping. Além da área de camping principal, onde se chega com o carro, existem outras 17 pequenas áreas de camping remoto espalhadas pelas trilhas. Paga-se U$2 por pessoa para usar uma destas pequenas áreas. O roteiro deve ser acertado previamente com o “ranger”, que verifica a capacidade máxima das trilhas e acampamentos escolhidos e fornece a permissão para caminhada. Esta deve ser levada na trilha e devolvida ao final. Durante a caminhada é possível que um “ranger” venha a solicitar tal permissão.

Na discussão sobre o roteiro, o difícil era pronunciar os nomes dos locais dos acampamentos remotos: Ngwenya, Mgwayiza, Ntabamhlophe, etc. Escolhemos o Maphandakazi !!

Para finalizar, o “ranger” nos questionou sobre o tipo de equipamento e a quantidade de comida que portávamos e também sobre nossa experiência prévia em caminhadas.

Preocupou-se especialmente com o tipo de fogão e nos lembrou fortemente da proibição de fazer fogo. Quando estávamos quase saindo, nos perguntou se carregávamos uma pequena pá. Ingenuamente perguntamos para que, mas logo notamos que precisávamos de algo para cavar nosso banheiro !!

Não tínhamos pá, pagamos U$3 de depósito, preenchemos a “ficha de locação de pá” e saímos equipados para nossa caminhada. Como a entrada da trilha que escolhemos ficava ao lado da estrada e começava a uns 5 Km da recepção, o “ranger” se ofereceu para nos levar no nosso carro e nos buscar no outro dia em local e hora pré acertados. SEM CUSTO.

Foi aí que notamos na parede um grande quadro com pregos identificados com os nomes dos locais de acampamento. O número de pregos correspondia ao número de vagas por acampamento. Conforme fôssemos caminhando, a chave de nosso carro iria de prego em prego, seguindo o roteiro inicialmente acertado. Deste modo, eles tinham uma idéia de onde estávamos e de quantas pessoas se encontravam nas trilhas. Estava até difícil de acreditar em tanta organização e presteza, mas tinha mais por vir.

Como era tarde, após o acerto dos planos para o dia seguinte, resolvemos acampar por ali mesmo, na área de camping principal, a U$ 2,5 por pessoa. Escolhemos um dos 15 sítios, cada um composto por um gramado fofinho para a barraca e uma cozinha cercada por um muro com churrasqueira, lugar para fogueira e uma mesa, tudo de pedra. A capacidade máxima por sítio é de 6 pessoas. Não havia luz, porém a água no banheiro (impecavelmente limpo!) era aquecida por uma fornalha a lenha. O banheiro tinha até uma banheira. Compramos lenha (de eucalipto!) e carne no mercadinho da recepção e fizemos uma bela fogueira regada a vinho sul africano (ótimo) e churrasco, iluminados somente pelo fogo e pelas estrelas.

Interessante a relação do africano (brancos e negros!) com o fogo e o churrasco. Deve vir de alguma tradição milenar... No Malolotja, além dos locais de churrasco em cada sítio, havia um cercado de pedras com um grande lugar de fogueira no centro onde grupos podem se confraternizar nas noites estreladas. Em todos os Parques em que estivemos, cada chalé, casa ou sítio de camping tem seu local para uma fogueira e nos mercados destes Parques se vende lenha de eucalipto ou pinho, carvão e carne. Eles lidam bem com o fogo, sabem respeitá-lo e valorizá-lo.

No dia seguinte arrumamos as mochilas, pegamos nosso “ranger” motorista e fomos até o começo da trilha. Ele nos indicou ondecomeçar, nos desejou boa sorte e foi embora com nosso carro.

De posse de mapa, descrição de trilha e GPS, iniciamos a caminhada e logo notamos que tínhamos mais informação do que necessitávamos !! As trilhas são muito bem sinalizadas com montes de pedras. Quando se chega a um deles, sempre se avista o próximo e a cada intersecção de trilhas, uma bola de concreto com flechas e números indica os locais de acampamento mais próximos. Algumas trilhas são muito antigas e serviram às tribos locais por milhares de anos. Tudo muito fácil porém sem perder a graça e o charme de estar na montanha.

Praticamente a cada cruzamento de riacho existe uma pequena área de camping remoto para duas ou três barracas, sinalizada por uma bola de concreto numerada e... limpíssima. A primeira destas áreas encontramos a apenas 30 minutos de caminhada, o que é ótimo para quando se chega tarde e se deseja caminhar no mesmo dia ou ainda para que pessoas de idade ou debilitadas usufruam dos prazeres de uma noite de acampamento. A cada 3 ou 4 horas de caminhada cruzávamos com um local destes.

Começamos a caminhar pela parte alta do parque, cruzando riachos e subindo e descendo pequenos morros. Beiramos um grande vale com belíssimas cachoeiras e descemos quase 1000 metros até a beira do rio onde ficava nosso acampamento. Foi um dia inteiro de belas paisagens e revigorante caminhada. Não encontramos com nenhum outro caminhante neste dia nem no próximo.

Um detalhe interessante nos parques africanos é a presença constante de animais selvagens. Vimos javalis, zebras, antílopes e diversos pássaros. Além de pegadas e fezes de outros um pouquinho maiores.

Após uma noite tranqüila, reiniciamos nossa caminhada e nem bem andamos 10 minutos, encontramos “vestígios fecais” de um dos dois elefantes que o parque possui. Eram bem recentes e tentamos encontrar o animal, sem sucesso. Ao continuarmos caminhando, encontramos diversos outros vestígios como galhos quebrados e pegadas. Num dos acampamentos rio abaixo, havia uma montanha fecal justamente no local da barraca, felizmente não era este nosso acampamento !!

Continuamos descendo o vale e pelas 11:00hs cruzamos a trilha que escolhemos para subir de volta à parte alta do Parque. Depois de lagartear ao Sol nas pedras aquecidas, lanchamos e iniciamos a subida. Foi uma caminhada puxada morro acima, porém sem maiores dificuldades.

À medida que subíamos observávamos as trilhas e vales do dia anterior bem como a mudança na vegetação, de vales arborizados para campos de altitude. Chegando à parte alta ainda tivemos tempo de descansar e observar algumas zebras quando pontualmente às 15:00 - conforme combinado - chegou nosso “ranger” motorista com nosso carro. Voltamos à sede do Parque, devolvemos a pá, nos despedimos e ainda tivemos tempo de ir até a capital do país - Mbabane - e nos deliciar com um jantar banquete no excelente restaurante Calabash. No dia seguinte partimos de volta para a África do Sul e nos dirigimos a outro Parque, nas Drakensberg (Montanhas do Dragão em Afrikaans), mas isso é uma outra história.

Malolotja nos deixou com gosto de quero mais... de fazer outras caminhadas mais longas, por outros cantos. É um Parque como deve ser, bonito, com muito para se ver e aproveitar além de belas caminhadas tanto para iniciantes como para veteranos. As regras são claras e lógicas, permitem que o caminhante usufrua da liberdade da montanha, sem afetar a flora e fauna locais. Há controle do número de pessoas e dos locais de acampamento de modo a não exceder a lotação máxima das diversas trilhas. Há rotina de fiscalização e manutenção das trilhas e em pontos remotos existem cabanas que os “rangers” usam durante suas constantes patrulhas.

Para evitar filas e frustrações no período de temporada, existe um número de telefone para reservas com antecedência. Os preços são justos e seguramente o mercadinho e os chalés são uma fonte de renda para o Parque. Tudo é muito simples, construído com materiais e mão de obra local, ou seja, barato. O Malolotja é sobretudo muito bem administrado e gerido pelos seus 12 “rangers”, todos educados, capacitados, conhecedores profundos das trilhas do Parque e que se revezam em plantões. Nosso sentimento é que os “rangers” têm muito orgulho do trabalho que fazem. Não vimos um único papel no chão, inclusive nos acampamentos remotos.

Na Swazilândia, os Parques são considerados patrimônio Nacional e financiados em parte pelo governo (SNTC), mas, mais do que dinheiro, o que viabiliza o parque é a vontade, o comprometimento e o trabalho das pessoas.

O MALOLOTJA é seguramente um exemplo a ser considerado. Num país minúsculo, montanhoso, de poucas terras cultiváveis, pobre e de economia extremamente frágil encontramos um paraíso do excursionismo livre e consciente. Porque não no Brasil?
 
 

Montanhista a vários anos, Fabio e Rosana visitaram Malolotja em Junho de 2001


Opinião: Acampamento em parques Nacionais Para conhecer mais, visite: http://www.sntc.org.sz

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 Fabio